Resumo do Filme Cidadão Kane: A Análise Completa da Obra-Prima de Orson Welles
Cidadão Kane (Citizen Kane), lançado em 1941 e dirigido pelo então jovem prodígio Orson Welles, não é apenas um filme; é um marco revolucionário na história do cinema. Constantemente aclamado por críticos e cineastas como o melhor filme de todos os tempos, sua relevância se mantém inabalável, décadas após sua estreia.
Mas, afinal, o que torna este épico sobre a vida de um magnata da imprensa tão fascinante e complexo? Como uma única palavra – “Rosebud” – conseguiu encapsular a tragédia de uma vida inteira de busca por poder e afeto? Se você busca um resumo completo do filme Cidadão Kane, com uma análise aprofundada de sua estrutura narrativa e inovações técnicas, prepare-se para desvendar a enigmática jornada de Charles Foster Kane.
A Estrutura Narrativa: Múltiplas Perspectivas
Ao contrário de narrativas cinematográficas tradicionais da época, Cidadão Kane adota uma estrutura não linear, fragmentada e profundamente moderna. A história não é contada cronologicamente, mas sim através de uma série de flashbacks desencadeados pela morte do protagonista, Charles Foster Kane, em sua gigantesca e isolada mansão, Xanadu.
O filme começa com a palavra final de Kane: “Rosebud”. Essa última expressão misteriosa lança o repórter Jerry Thompson em uma investigação que ocupa o cerne de toda a trama. Thompson busca decifrar o significado de Rosebud na esperança de encontrar a chave para entender a complexa personalidade de Kane.
Os Narradores e Suas Versões da Verdade
Para construir a biografia de Kane, Thompson entrevista pessoas que o conheceram em diferentes fases de sua vida. Cada testemunho oferece uma peça do quebra-cabeça, mas, crucialmente, cada um reflete a percepção e o preconceito do narrador, nunca revelando a verdade total. Welles utiliza essa técnica para mostrar que a vida de um indivíduo, especialmente um tão poderoso e público quanto Kane, é impossível de ser resumida em uma única versão.
Os principais depoimentos incluem:
- Walter Thatcher: O banqueiro guardião, que narra a infância de Kane e sua transformação em um jovem ambicioso. Ele o via como um irresponsável mimado.
- Mr. Bernstein: O gerente leal do jornal Inquirer, que oferece uma visão pragmática e afetuosa de Kane, focado em sua ascensão no mundo editorial.
- Jedediah Leland: O melhor amigo de infância e crítico de teatro, que testemunha a decadência moral de Kane após a entrada na política e o casamento. Ele o vê como um traidor de seus próprios ideais.
- Susan Alexander Kane: A segunda esposa, uma cantora fracassada, cujo depoimento revela o lado tirânico e controlador de Kane, bem como sua profunda solidão.
- Raymond: O mordomo de Xanadu, que oferece a visão final e mais distante do homem, descrevendo seus últimos anos de reclusão e ressentimento.
A Ascensão e Queda de Charles Foster Kane
A vida de Charles Foster Kane é uma trágica parábola sobre o poder e a incapacidade da riqueza de preencher o vazio emocional. Sua trajetória começa quando, ainda criança no Colorado, ele herda uma vasta fortuna proveniente de uma mina de ouro inesperadamente lucrativa.
Tirado de sua mãe e enviado para ser educado por Thatcher, Kane cresce ressentido com a imposição e determinado a exercer seu poder e liberdade. Aos 25 anos, assume o controle de um pequeno jornal de Nova York, o Inquirer, transformando-o em um veículo de jornalismo sensacionalista (yellow journalism), inicialmente, sob o pretexto de defender os interesses do povo.
A Busca por Poder e Amor
Kane se casa com Emily Norton, sobrinha do presidente, buscando status e aceitação na alta sociedade. Seu casamento, contudo, é frio e político. Simultaneamente, ele lança uma ambiciosa campanha para governador. É durante essa campanha que ele inicia um caso com Susan Alexander, uma cantora com pouco talento.
“Eu nunca tive que lutar por nada que eu quisesse. Eu só pedi.” – Charles Foster Kane (Uma citação que resume a essência da sua falha em valorizar o que tinha).
O escândalo do caso com Susan destrói sua carreira política, custa-lhe o casamento com Emily e o afasta de seu amigo Leland. Movido pelo orgulho e pelo controle, Kane obriga Susan a se casar com ele e, pior, força-a a seguir uma carreira operística desastrosa. Ele acredita que pode “comprar” o sucesso dela, assim como comprou tudo o mais em sua vida. O fracasso dessa tentativa, culminando na tentativa de suicídio de Susan e sua eventual partida, marca o ápice da derrocada pessoal de Kane.
Isolado em Xanadu, sua fortaleza pessoal cheia de tesouros inúteis e arte roubada (símbolos de sua incapacidade de se conectar com objetos e pessoas), Kane passa seus últimos anos em amargura e solidão, cercado por tudo e sem ter nada de valor afetivo.
Rosebud: O Mistério Central e Seu Significado
O mistério de Rosebud conduz toda a investigação jornalística, mas a sua revelação, nos momentos finais do filme, não satisfaz a curiosidade do repórter Thompson ou do público da época. O repórter conclui que Rosebud deve ser apenas “uma peça perdida de um quebra-cabeça”.
Na cena final e icônica, a câmera se afasta dos repórteres desiludidos e se move pelo vasto armazém de Xanadu, onde os pertences de Kane estão sendo queimados. Em meio às chamas, vemos a resposta: Rosebud é o nome do trenó que Kane usava quando criança, jogando na neve do Colorado, momentos antes de ser levado embora por Thatcher.
Por que um trenó é tão importante?
Rosebud simboliza a única época na vida de Kane em que ele experimentou felicidade, segurança e amor incondicional, antes de ser corrompido pela riqueza e pelo poder. É o elo perdido com sua inocência e humanidade. A palavra final de Kane é, portanto, um lamento pela vida simples que lhe foi roubada, o único tesouro que ele não conseguiu comprar de volta, não importa quantos milhões de dólares acumulasse.
Inovações Técnicas de Orson Welles
Se o enredo de Cidadão Kane é genial, sua forma é ainda mais revolucionária. Orson Welles, vindo do teatro e do rádio, ignorou as convenções de Hollywood, introduzindo técnicas que se tornaram padrões essenciais do cinema moderno. Essa abordagem ousada solidificou o filme como um estudo obrigatório para qualquer aspirante a cineasta.
O Foco Profundo (Deep Focus)
A técnica mais notável é o uso sistemático do Foco Profundo. Isso permitia que tanto os objetos em primeiro plano quanto os de fundo estivessem perfeitamente nítidos na mesma cena. Essa profundidade de campo não era apenas estética, mas narrativa, permitindo que o público absorvesse múltiplas camadas de informação simultaneamente, como a criança Kane brincando na neve (fundo) enquanto seus pais decidem seu destino (primeiro plano).
Contraste e Angulação Inovadora
Welles também utilizou iluminação de baixo contraste (low-key lighting) para criar sombras dramáticas, refletindo o caráter sombrio e a paranoia de Kane. Além disso, ele chocou a indústria ao filmar ângulos baixos (low-angle shots), que frequentemente revelavam os tetos dos cenários. Essa técnica não apenas dava a Kane uma aparência monumental (quando filmado de baixo), mas também adicionava realismo aos ambientes.
Abaixo, detalhamos como Welles subverteu as normas cinematográficas da época:
| Aspecto Técnico | Padrão Clássico de Hollywood (1940) | Inovação em Cidadão Kane (1941) |
|---|---|---|
| Foco de Cena | Foco suave, profundidade rasa (shallow focus) | Foco Profundo (Deep Focus) – tudo nítido |
| Ângulos de Câmera | Nível dos olhos (eye-level), planos gerais | Ângulos baixos e altos dramáticos, tetos visíveis |
| Estrutura Narrativa | Linear e cronológica | Não linear, uso extensivo de flashbacks e narradores múltiplos |
| Design de Som | Edição simples e sequencial | Uso de sound bridges (pontes sonoras) e transições complexas |
O Legado e a Relevância Duradoura
A recepção inicial de Cidadão Kane foi marcada tanto pelo sucesso crítico quanto pela controvérsia. O filme é uma sátira mal disfarçada da vida do magnata da imprensa William Randolph Hearst, que usou seu poder e influência para tentar boicotar o lançamento do filme. Este conflito real adicionou uma camada extra de drama à sua história.
Apesar do boicote de Hearst ter impedido que o filme fosse um sucesso de bilheteria imediato, ele rapidamente ganhou status de culto na Europa e, nas décadas seguintes, foi redescoberto e reavaliado pelo cinema americano.
Por que o filme continua no topo das listas de “melhores de todos os tempos”? Porque ele trata de temas universais e atemporais: a natureza da memória, o preço da ambição, a solidão inerente ao poder e a busca frustrada pela felicidade através de bens materiais. Além disso, suas técnicas visuais são o DNA de grande parte do cinema que veio depois dele. 🎬
Conclusão: Mais do que um Resumo, uma Reflexão
O resumo do filme Cidadão Kane nos revela a tragédia de Charles Foster Kane: um homem que, tendo tudo, escolheu o poder sobre a afeição genuína, terminando sua vida na escuridão de seu próprio castelo de vaidade. A busca pela decodificação de Rosebud mostra que o verdadeiro mistério da vida não está nas palavras ou nos objetos, mas sim na complexidade inatingível da alma humana.
Este filme é uma aula de narrativa e técnica que desafiou seu tempo e permanece um testamento da genialidade de Orson Welles. Se você ainda não assistiu a esta obra-prima, dedique um tempo para vivenciar não apenas a história de Kane, mas a revolução cinematográfica que ela representa. Mergulhe nesta experiência clássica hoje!
Perguntas Frequentes
Qual é o significado de Rosebud em Cidadão Kane?
Rosebud é o nome do trenó que Charles Foster Kane estava usando quando era criança, momentos antes de ser levado de sua casa no Colorado para ser criado por um guardião. Ele simboliza a infância perdida de Kane, sua inocência e o único período de sua vida em que ele se sentiu verdadeiramente amado e seguro, antes de ser corrompido pela vasta riqueza.
Cidadão Kane é baseado em uma pessoa real?
Sim. Embora o filme seja fictício, o personagem Charles Foster Kane é fortemente inspirado na vida do magnata da imprensa William Randolph Hearst. Muitos detalhes da vida de Kane, incluindo sua paixão por colecionar arte e a construção de uma mansão imensa e isolada (Xanadu/Hearst Castle), são paralelos diretos à vida de Hearst.
Quem dirigiu e estrelou o filme Cidadão Kane?
O filme foi dirigido, co-escrito e estrelado por Orson Welles. Ele tinha apenas 25 anos na época do lançamento. Sua juventude e total controle criativo sobre o projeto permitiram as inovações radicais que definiram o filme.
Por que Cidadão Kane é considerado o melhor filme de todos os tempos?
Cidadão Kane é consistentemente classificado como o melhor por sua inovação técnica (uso de Foco Profundo, ângulos dramáticos e design de som complexo) e sua estrutura narrativa complexa e não linear. Ele revolucionou a maneira como as histórias podiam ser contadas no cinema, influenciando gerações de cineastas.
Cidadão Kane foi um sucesso de bilheteria em 1941?
Não, apesar do sucesso crítico. O filme enfrentou boicote maciço de William Randolph Hearst, que impediu muitos cinemas de exibirem a obra. Ele só atingiu reconhecimento comercial e de público global nas décadas de 1950 e 1960, após ser redescoberto e amplamente reavaliado por críticos franceses e americanos.
O que é o Foco Profundo e por que ele é importante no filme?
Foco Profundo (Deep Focus) é uma técnica cinematográfica em que todos os planos de uma cena — o primeiro, o médio e o fundo — permanecem igualmente nítidos. Isso era incomum na época. Em Cidadão Kane, ele é crucial para a narrativa, pois permite ao espectador ver a complexidade das relações e a ação em múltiplos níveis simultaneamente, sem depender apenas do corte.







